Acerca do silêncio

A palavra tem poder. Ela cria ou destrói mundos, relacionamentos, amizades, empregos, enfim, ela tendencia as coisas a se moverem em prol dela.

O silêncio é mais poderoso: ele deixa as coisas se moverem em prol de si mesmas.

Genghis Khan no filme homônimo era retratado como um homem calado. Havia força naquele silêncio. Idem ao Clint Eastwood nos seus filmes, o maior mestre do silêncio. Deixavam que as coisas acontecessem e, quando aconteciam, agiam. Só. Do que adiantaria falar e perder energia? Ou direcionar algo para uma natureza que não lhe compete?

Estamos em um mundo de excesso de palavras. Elas pulam nos nossos olhos. Nos forçam o pescoço para lê-las, nos transformam, lentamente, em indivíduos sem foco, querendo a cada segundo abraçá-las. E o silêncio? Morreu. Não como os exemplos supracitados de domínio do silêncio, naquele hiato longo entre um grunhido e uma resposta que vinha, logo mais, com uma ação para dar significado – porque silêncio, ao contrário do que muitos pensam, não é ausência, é preenchimento.

Morreu de esquecimento, de desvalorização. Quem precisa do silêncio? Quem precisa aprendê-lo? Precisamos aprender a falar, dizem! Estudar como falar, de que modo, de tal forma que conseguiremos tudo que queremos – contam de forma deslumbrante. Será? E, se sim, a qual preço? Talvez o preço da angústia, a palavra mais famosa de todos os tempos atualmente. As pessoas são ansiosas e angustiadas porque querem mudar a natureza do mundo, mudar as pessoas, curvá-las incessantemente a seu bel prazer , porque o real princípio final delas é ‘ser feliz’. Como se felicidade preenchesse algo a não ser o deslumbre. A felicidade não nos preenche – ela preenche o ego e ele nos dá deslumbre momentâneo. O mundo perde sua conjectura, esquecemos momentaneamente de quase tudo e… tudo rapidamente, de forma simples, É. Não mais vir a ser, não mais o que seria. Mas é. Aprendemos, por segundos, a sentir o presente e viciamos nisso, ouvindo o ego dizendo ‘você pode ter mais, só precisa dar mais palavras’.

E se te dissessem que, com o silêncio, você pode ter o melhor dos mundos? Você pode SER, existir no presente, senti-lo de forma real – e não aquele emaranhado de emoções distorcidas que te faz sentir todo poderoso até a realidade te dar uma coronhada na fronte – e, ainda, dormir tranquilo? Sem angústia. Só deixando as coisas serem como são.

O preço? Que talvez, na maioria das vezes, as coisas não saiam como você queira, mas você vai continuar tentando mesmo assim, na lei do silêncio. E cada palavra, nessa lei, tem mais poder, significado e um ‘gosto’ doce da experiência de ter sido cuidadosamente pensada para aquele exato momento. Porque de momentos exatos é que vivemos. De nossa vida inteira, vamos nos lembrar de, sei lá, 10% se formos generosos. Faíscas de longas jornadas de combate incessante contra a morte e o vazio. Pena nós querermos sempre uma fogueira de São João, sem se esquecer que, ao contrário das espadas que soltam faíscas, elas não duram muito, acabando em cinzas e com uma vaga lembrança na cabeça dos presentes.

Guiemos nossas vidas como as espadas, que sabem ter seus poucos momentos, mas são decisivos. Que soltarão faíscas no combate, brilharão aos nossos olhos e desaparecerão como lágrimas na chuva. No areia do tempo. Mas, que no fim de muitas jornadas, não restarão só cinzas, mas espadas de fio cego que, pelo brio da mão humana, podem recuperar seu esplendor e ir para novas batalhas. Mas, na maior parte do tempo, uma espada não permanece em combate: ela permanece na bainha. No silêncio. E é lá que ela, ao ser tirada, traduz todo seu significado.

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Não seja o guerreiro descuidado que sai brandindo sua espada por aí, porque perderá o respeito e ninguém dará atenção nem significado quando for combater. Seja o guerreiro que faz o silêncio ser sua maior arma e que, na hora que o som da espada saindo da bainha se faz presente, ecoa no seu ouvido e no das pessoas ao redor, guardando significado e clamando decisão. E a cada faísca que sair, serão momentos da nossa vida que guardaremos.

Mas não adianta batermos nossas espadas em pedras ou paredes tentando simular a faíscas de combates para guardarmos bons momentos ou sermos bons guerreiros. Devemos deixar nossas vidas nos seus fios e que as faíscas sejam construídas pelo combate entre guerreiros dispostos em uma decisão uníssona pelo som do aço. Só entenderemos o silêncio, valorizaremos as faíscas e seremos bons instrumentos de Graça se formos boas espadas. Todo guerreiro se torna uno com a sua.

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E no fim, novamente, só haverá silêncio e ele te preencherá de significado. E todo o resto não importará, porque você saberá o preço da palavra e a riqueza do silêncio.

Assim é com nossas vidas, assim é com nossas línguas que proferem faíscas e cortam muitas vezes sem necessidade, brandindo de forma irresponsável e gerando angústia nos nossos corações e no coração do próximo.

Sejamos boas espadas para o Universo vivendo pela lei do silêncio.

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