Emil Zatopek – Um homem de fibra

Eu iria escrever sobre ele, mas vários jornalistas mais talentosos já o fizeram. Tomem como motivação para a vida de vocês:

http://www.relatosderesistencia.com.br/2011/10/correr-emil-zatopek.html

E um antigo artigo da Veja:

Vencedor dos 10.000 metros, o checo Emil Zatopek
conquista os londrinos com sua simpática esquisitice
nas pistas e sua dedicação ao esporte fora dela

Estilo inusitado: quem via o checo correndo não acreditava que aquele era um grande campeão

Uns comparam sua forma de correr ao de um camelo ofegante. Outros, à jornada de um ébrio após longa madrugada. Para todos eles, Emil Zatopek tem a resposta na ponta da língua: “Isto não é ginástica ou patinação artística”. O homem – ou melhor, a Locomotiva Humana – tem razão. Dono de um estilo pouco convencional na pista, este checo de 25 anos comprovou a fama que lhe precedia e foi o senhor absoluto da prova dos 10.000 metros, logo na primeira final do programa de atletismo das Olimpíadas de Londres, em 30 de julho. Correndo em um mundo que parecia ser só seu, o fundista cravou 29 minutos e 59 segundos, superando o recorde estabelecido em Los Angeles-1932 em 12 segundos. Mais: o checo conseguiu colocar uma volta de vantagem sobre a maioria de seus 26 oponentes, para delírio da plateia em Wembley, que explodiu em um só grito: “Za-to-pek!”

De fato, é difícil não se empolgar com a simpática esquisitice e com a emocionante dedicação ao esporte deste desajeitado soldado do Exército da Checoslováquia. Seu corpo chacoalha violentamente na pista, enquanto sua cabeça balança em frenético ziguezague e sua língua jaz fora da boca. Os gemidos e os urros que emite dão aos desavisados a impressão que aquele é o trote de um moribundo. Ledo engano. Zatopek é, como reza seu apelido, uma locomotiva a todo vapor – que está longe de ser freada, como descobriu o detentor do recorde mundial dos 10.000 metros, Viljo Heino. Travando um duelo particular com o checo pela liderança em Londres, o finlandês, segundo colocado, não conseguiu acompanhar o ritmo de Zatopek e abandonou na volta 16 de 25. O francês Alain Mimoun O’Kacha e o sueco Bertil Albertsson ficaram, respectivamente, com a prata e o bronze – intermináveis 50 segundos atrás do checo voador.

Noiva nas costas – Que o leitor não pense, porém, que Zatopek é um extraterreste em meio aos mortais. Ex-trabalhador em uma fábrica de sapatos, o campeão dos 10.000 metros é um humano incansável que forja seus talentos atléticos em um regime de treinamento metódico, espartano e por vezes até cruel. Suas sessões diárias de corrida de 25 quilômetros acontecem faça chuva, sol ou neve, de dia ou de noite. Pesadas botas do exército substituem as sapatilhas nos treinos – para que, nos dias de corridas, o atleta se sinta mais leve. Alguns trechos são vencidos com a respiração presa; em outros, Zatopek carrega nas costas sua noiva, Dana Ingrova, atleta do lançamento de dardo, para ganhar força e resistência. Até agora, deu resultado.

Três dias depois de vencer os 10.000 metros, o soldado disputou a final dos 5.000 metros e ficou com a prata, atrás do belga Gaston Reiff – apenas 2 centésimos de segundo separaram os competidores, ambos terminando abaixo do recorde olímpico. Depois da prova, Zatopek correu até o alojamento das damas, onde Dana, também representando a Checoslováquia, estava concentrada para a disputa do dardo. Ignorando a proibição da entrada de homens, foi contar as últimas novidades à noiva. Acabou sendo retirado apressadamente pela diretora do albergue.

Em seguida, como se nada tivesse acontecido, a Locomotiva Humana embarcou até a famosa Picadilly Circus, no centro de Londres, para comprar duas alianças de ouro – o casamento entre os atletas está marcado para acontecer ainda neste ano. Quem foi que disse que as máquinas não têm coração?

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Este homem não precisava de motivação: a existência dele era a própria.

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5 pensamentos sobre “Emil Zatopek – Um homem de fibra

  1. Ele carregava a noiva nas costas… O que indica que um treino de força funciona bem mesmo para corridas de longa distância… E se adicionarmos o exemplo do ultramaratonista Dean Karnazes, a evidência fica ainda mais forte. Interessante…

    • Certamente. Na realidade, a questão ao meu ver é o aumento da resistência do SNC ao estresse, nem tanto do recrutamento muscular e outros fatores.

      Também devemos o fato da respiração celular nos treinamentos de força requirirem um nível maior de eficácia, pode ajudar no gerenciamento do ATP/oxigênio intracelular em provas como as que Zatopek fazia.

      Claramente são atividades extenuantes ao extremo, então o treino intervalado permitia evoluir, teoricamente, os mesmos aspectos exigidos ao corpo humano nas provas que ele se propunha com menos dano/desgaste por parte do atleta, tanto física quanto mentalmente (provas de longa distância também exaurem a força de vontade do competidor, lembro de ter visto pesquisas acerca).

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