Um homem que salvou o mundo

Muitos ficam incessantemente perguntando o que é ser homem, como restaurar os valores masculinos e coisas do tipo. Passam o dia na internet punhetando teorias e, na hora H, agem feito uns bambis. É, sei como é, se no meu cotidiano fora da cápsula da web vejo isso, imagine aqui – lugar onde todo mundo é bonito, rico, pegador e cheiroso.

Ser homem tem mais a ver com as coisas que você faz quando ninguém está olhando do que aquela sua pose de badass treinada na frente do espelho com aquele Rayban Hunter que você comprou para se achar o Stallone Cobra. Tem a ver com suportar o insuportável. Não ficar de choro. Segurar os pontos quando todo mundo está desmoronando ao seu redor e, sim, não é uma opção: ou você é assim ou simplesmente você ainda é um garoto wannabe de homem. Sua idade não vale de nada se você não tiver tais requisitos, tampouco seu carro, muito menos seu emprego – o sistema está continuamente procurando te ensinar que o melhor tipo de personalidade e conquista é a auto-afirmação, o que claramente é uma balela, como aqueles gordos comedores de doritos que gastam o dinheiro inteiro em um MMORPG achando que comprar todos os itens poderosos do jogo os transformarão em algo – risível. Somente os pobres de espírito idolatram tais tipos de conquistas e, bem, convenhamos, eles se merecem (os que buscam idolatrar e os idolatrados em questão).

Como a palavra se apaga mas o exemplo fica, deixarei a história de um homem que fez uma boa ação e, de quebra, nos deixou um bom exemplo de retidão de caráter, bem como de responsabilidade. Stanislav Petrov é o nome dele e aqui abaixo traduzirei trechos da Wikipédia para os incautos no inglês (e se você que está lendo este artigo tem problemas com tal língua, tome vergonha na cara e vá estudar, é extremamente importante para sua trajetória profissional e também para o brio pessoal, porra).

 

Sr. Stanislav Petrov:

Ele estava no comando de um silo de misséis soviéticos em 1983. Seu trabalho era ficar atento a ataques nucleares em potencial dos EUA e, se fosse necessário, responder com o poder de Deus.

No dia 26 de Setembro de 1983, ele recebou um alerta de míssil – alertando-o que um potencial ataque nuclear MBIC (Míssil Balístico Inter Continental) tinha sido lançado ao seu país.

Então, como um bom oficial Soviético – quando este alarme fosse acionado, era o trabalho de Petrov alertar o alto comando imediatamente, no qual o resultado mais próximo do esperado seria um contra-ataque em grande escala por parte dos Soviéticos, o resultado óbvio do que aconteceria…

Para nossa sorte, Petrov decidiu que era mais provável que o sistema de alerta estivesse errado, ao invés de ter realmente um ataque nuclear americano sem aviso, pois o fato de seu alerta indicar cinco mísseis no ar pareceu estranho, porque toda inteligência sugeriu que qualquer ataque americano seria um ‘tudo ou nada’, ou seja, chovendo bombas, então ‘só’ cinco pareceu estranho.

Parece que a intuição do nosso amigo estava certa – o malfuncionamento, que quase causou uma terceira guerra mundial (e a morte de incontáveis milhões), foi na verdade causado por nuvens:

Depois foi determinado que os alarmes falsos foram causados por um raro alinhamento da luz do sol de nuvens em elevada altitude com as órbitas dos satélites Molniya, um erro posteriormente corrigido por um referenciamento cruzado com um satélite geoestacionário.

Bonito, não é? Não exatamente. Sabem quais foram as consequências que Petrov sofreu?

Foi colocado no ostracismo e a URSS ficou p. da vida porque o mesmo externalizou problemas nos sistemas de defesa. Passou-o para um posto menos destacado e, pouco tempo depois, dispensou o mesmo do serviço militar.

Petrov foi relegado a pobreza e o máximo que ganhou em torno do feito foi um troféu de merda com adicionais mil doláres por uma associação californiana.

Ou seja, este é o peso de uma vida de honra. E de fazer o que é certo. E as entrelinhas de ser verdadeiramente um Homem são essas: honra e fazer o que é certo. O desejo de ser JUSTO. Não é riqueza, não é reconhecimento, mas o que sentimos dentro de nós, o orgulho com nós próprios.

Isto pode ser reconfigurado mesmo com uma vida toda de deturpação por parte da sociedade onde somos treinados para agradar os outros. Para ser famoso não importa o custo. Para ter prazer incomensurável. Mas qual o preço?

Como diz Laurence “Prophet” Barnes, protagonista de Crysis, ‘Victory costs’. Gosto deste jogo, deste protagonista principalmente, por causa não só das suas escolhas, mas porque ele sabe o preço delas e está disposto a pagar. E isto é o bastante.

Para quem não conhece, foda-se que é um jogo. Eis o vídeo:

E lembrem-se: a vitória virá muitas vezes com a solidão, o ostracismo, a negação do mundo perante algo que, por mais que alguns achem besteira e que não seja um ato do nível do Sr. Petrov, para vocês internamente será TODA a diferença que precisam. E façam isso não para serem reconhecidos como homens por mim ou por quem quer que seja.

Façam porque é o CERTO.

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5 pensamentos sobre “Um homem que salvou o mundo

  1. O cara mandou muitíssimo bem de ter usado o próprio feeling, experiência e conhecimento da situação pra considerar que era um falso alerta. Ele arriscou muita coisa nesses instantes e, por sorte, deu certo.

    Infelizmente ele ficou numa sinuca de bico. Afirmar que os americanos estão atacando ou afirmar que o sistema soviético é falho? Difícil de responder quando se tem tempo de pensar. Numa situação real então, é muita tensão.

    Só queria informar pros leitores que fizeram um filme retratando esse incidente. Chama “The Man Who Saved the World”. https://www.youtube.com/watch?v=y6WvXxMkBWg

    Abraço!

    • A ciência do nível de responsabilidade do próprio cargo bem como seus valores morais foi o ‘start’ para tudo isto, certamente.

      Obrigado pela colaboração, Thiago, não sabia deste filme, ótimo adendo.

  2. Muito bom camarada. Ser homem está relacionado a ser um homem dentre homens num grupo de homens. “Ele é um homem entre muitos”. Honra é a capacidade de tornar as expectativas daqueles que nos são caros reais. É ser um “homem de ação” (Yukio Mishima). Excelente texto.

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