Queima

Em estradas que minha imaginação passa divago acerca da efemeridade da existência, enquanto a própria se consome no tempo. Impressionante a sensação da vida queimando como um cigarro acesso, onde qualquer brisa só acelera o derradeiro fim, como o vento que paira sobre meus cabelos enquanto dirijo. Meus sentidos se banham em uma fusão de luzes, cores e sons, onde a percepção me constrói o mundo e volto meu olho para o velocímetro: mais um medidor, como a vida passando novamente pelo meus pés, onde a cada pisada do acelerador intensifica a sensação de vida e aproxima (ao mesmo tempo) da morte, de forma tão simples e fulgaz. A mesma sensação de queima (do cigarro) vem à tona e me pergunto: será minha vontade queimando? A ânsia de viver, por mais ínfima seja a minha existência e meus propósitos perante o Universo, seja ele regido ou caótico, guiada simplesmente por um corpo amendrontado com o futuro e seus limites claros de transcedência? Talvez. Camus morreu de acidente, penso eu. Proeminente pensador, a cabeça afiada não o salvou das vicissitudes da vida, bem como outros, como Van Gogh que, no auge do desespero, dispara contra si, ou como Hemingway, semelhante fim. Ambos, nas vicissitudes, a(ssa)ssinaram suas maiores obras, de forma trágica, para a eternidade.

Talvez, como dizem, o problema seja pensar demais…

Ou simplesmente acreditar que o conhecimento e a habilidade se dispõem a tudo e que o homem, na sua magnitude, consiga se salvar. E, na beira do desespero pela responsabilidade do próprio futuro, muitas vezes a única solução é suicidar-se em um gesto febril de agonia perante tudo. E a Natureza? Que se dane, dizem, afinal, eu sou senhor de mim, bem como do mundo (no que apetece meus sentidos, alegam).

Com o volante na mão, os pés no acelerador, o cabelo ao vento, realizo que, simplesmente, eu tenho diversas possibilidades e todas se equivalem ao leque de escolher como morrer: o grande ato final. E sobre o bem viver? O cigarro está queimando, talvez seja só questão de como você vai escolher queimar. Afinal, “o homem pode ser destruído, mas não derrotado”, não?

O que fica em todo meu devaneio? Talvez nada para você, leitor prático, esperando mais um artigo do forno para debruçar-se e trazer-lhe mais próximo do Übermensch que tanto idealiza. Eu não estou aqui para fazer você mais forte no quesito que será inatingível, mas mais forte que será aberto a tudo, será ferido, mas não irá lamentar-se, não irá cair em desgraça, nem cultivar rancor, mas ser nobre nos seus atos, justo no seu coração e ético na sua vida. Destituir-se de tudo é muito fácil, quero ver abraçar o mundo e manter sua individualidade com o carinho da existência que os outros demandaram com você e, se não demandaram, você sabe o quão importante isso é para um ser humano, então, porque não fazê-lo?

Andando à esmo me deparo com este texto em um caderno, enquanto um simples homem como eu deseja dias melhores para outros homens simples como eu, que almejam ser uma fortaleza, mas dentro de vivências e da sinceridade contínua de ser a melhor pessoa possível para todos aqueles que esbarraram nas nossas vidas.

Abaixo os escudos, os comerciais e os delírios de grandeza. Por mais homens geniais que entendam que talvez o grande segredo de uma vida plena não seja um traço colérico de razão, mas a sacada mordaz da virtude.

E se não der certo? Bom, então…

“É sempre assim. Morre-se. Não se compreende nada. Nunca se tem tempo de aprender. Envolvem-nos no jogo. Ensinam-nos as regras e à primeira falta matam-nos.”

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