Sem firulas: O negócio mesmo é aguentar

Há séculos o homem busca meios para não sofrer (em vão, fato). Seria ignorância dizer que a tal moda de passar pela tangente da razão e afogar-se nos prazeres é uma coisa atual, da modernidade: na realidade, a modernidade só nos deu ferramentas mais práticas para agirmos como  desejamos.

Nas minhas andanças pela internet, tenho notado um advento muito curioso que é o crescimento de métodos que prometem o crescimento pessoal através de uma busca desesperada (o que não tira a validade da coisa para quem tem vontade) pelo não sofrimento e pela promessa futura de encaixe social caso passe por todas as adversidades propostas. Tais métodos possuem nomes para lá de místicos: modo monge, modo zumbi, modo espartano, etc. Curioso como até nos moldes de desenvolver-se, o homem mexe com símbolos de poder e busca um modo de trabalhar o imaginário de uma forma de merchan que o faz sentir-se senhor de si mesmo, uma forma moderna de trabalhar a tão gritada individualidade que todos buscam.

Estes modos fazem urgir sob as fraquezas do indivíduo e clamar algum nível de disciplina, o que é certamente válido. Este post não é acerca da ineficácia dos modos, mas sim da frescura de quem os procura. Meu caro, venha cá: é novidade que você deve ter disciplina para fazer algo na vida? Que motivação é temporária? Que a dor é algo constante da nossa existência? Certamente NÃO. E se você não concorda, não viveu o suficiente, levante a bunda da cadeira e vá se virar.

O grande motivo de passarmos curtos ou longos períodos de dor é justamente porque o mundo não foi feito para nós, não se inclina a nossas vontades, é pragmático e gira por si só. Enquanto isso, desde nosso nascimento somos condicionados a nos perceber como indivíduos e clamar do mundo do mais básico ao mais estapafúrdio, onde a fórmula reside em: quanto mais ansiedade ou desejo em algo alheio a ti, maior a chance de sentir uma dor vertiginosa, que é basicamente a realidade chutando suas bolas e exigindo algo, seja mais conhecimento, dinheiro, trabalho, esforço, etc. Ou seja, tudo tem um preço e para alguns é mais caro conseguir algo que para outros, a vida é assim e quem aprende isso desde cedo enche menos o saco dos outros.

Então ao invés de ficar procurando métodos, planejando X dias para tornar-se algo e sair da merda de um casulo, achando que depois de uma maldita jornada do herói romantizada por si próprio você voltará como Luke em O Retorno do Jedi, caia na real e diga para si próprio: o negócio mesmo é aguentar. Isso, floquinho, o que muitos chamam como resiliência, outros como macheza, outros como laconismo, outros como estoicismo, se resume em algo eterno no coletivo da humanidade, que é a capacidade de aguentar. De engolir o choro. De perder o braço, parar de drama e ir estancar logo a droga do corte antes que você morra. E se gritar de dor? Terá febre, gastará energia, provavelmente o corpo entrará em choque, você desmaiará e vai morrer de hemorragia. Este é outro fato duro da vida.

O que muito ‘nego’ precisa entender é que a vida não é esta merda romântica hollywoodiana, que cada coisa nas vossas vidas é real, que o risco é iminente e que cada momento que vocês passam sem fazer algo quanto a uma questão que lhes aflinge mais significa que se debaterão na questão, agonizarão lentamente e, o pior, às vezes pelo resto da vida porque há momento para tudo e uma oportunidade perdida muitas vezes será para sempre: só outra vida para proporcionar-lhe o que almejava. Como os sonhos perdidos que jazem no rio Estige por toda a eternidade. Uns que a vida não proporcionou, outros que o esforço não bastou pela pequenez existencial de seus possuidores.

O que fazia Esparta gloriosa não era seu próprio nome, mas os espartanos. E o que os faziam gloriosos não era nascer no pedaço de terra da Lacônia, mas as escolhas que faziam durante suas vidas em prol de algo, o preço pago pelo suor, sangue e lágrimas. O que fez a história marcar significado de Força um povo foi a capacidade de cada indivíduo deste mesmo povo em dedicar-se integralmente a ser forte. Cada milésimo de sua existência era dedicado a isto e, se falhasse, a morte era bem vinda: era um ensino rápido e forte para os mais jovens que não deveriam bobear acerca da fina linha chamada vida.

Viver é lutar e nenhum modo vai fazer-lhes mais completos que entender que relaxar indefinidamente é irresponsabilidade, que a regra da vida é o trabalho e o sofrimento mediados pela capacidade humana de resistir perante tais por intermédio da vontade.

NENHUM PROTOCOLO TRADUZIRÁ VOSSAS VIDAS E NENHUM MOMENTO ASSEGURARÁ NADA. NENHUMA FORTE DOR OU SOFRIMENTO OS GARANTIRÁ GLÓRIA E A ÚNICA CERTEZA É QUE TODOS VAMOS MORRER.

A partir de tal epitáfio, convém a nós próprios designarmos: ficamos ou vamos?

Para onde? Não importa.

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